sexta-feira, dezembro 07, 2007

O Poeta Inventa Viagem,
Retorno e Morre de Saudade

Hilda Hilst

Se for possível, manda-me dizer:
- É lua cheia. A casa está vazia -
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
- É lua nova -
E revestida de luz te volto a ver.

sexta-feira, novembro 30, 2007

Ela por Ela
Eu por Ela...

Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.
...

“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.

Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...]Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei."

Clarice

quarta-feira, novembro 28, 2007

moça da tarde

se errei caminhos
acertei o teu
não vou mentir
segui teus passos
espaços no espaço
passagem em tempo
dos dias de desalento
onde ventania soprou
fazendo serenata
do sorriso largo
cheio de fervor
por encontrar
aquele antigo amor

para a moça da tarde que nunca esqueceu aquele antigo amor.


Lua


terça-feira, novembro 20, 2007

re ta lhos
...

teci

com as cores
do teu olhar
um manto
de

retalhos

para cobrir
a saudade
que me invade

quando eles
estão longe

tudo

fica


sem cor...

segunda-feira, novembro 19, 2007

"Te encontro com certeza, talvez no tempo da delicadeza..."

Delicadeza

com a ponta
do pé
ela tocou
o frio

da chuva
de ontem
à noite
inteira

sem dormir
seus olhos
borbulhavam
saudade

da noite
do frio
da ponta do pé
no outro pé.


Lua

quarta-feira, outubro 24, 2007

Doce Lar


Quando menos se espera
encontra-se o amor
em uma esquina
acenando com o olhar
pedindo pra ficar
com malas e retratos
lembranças
e esperanças
.
Quando menos se espera
ele já está dentro da gente
uma flor, uma luz
um sorriso inesquecível
sonhos eternos
na magia do cotidiano
entranhados
no coração
.
Quando menos se espera
ele toma forma
passos no corredor
sombras no abajur
cheiro no jardim
e mesmo quando não está
se faz presente
mesmo assim
.
Quando menos se espera
tudo aconteceu
eu e você você e eu
na parede da sala
num retrato feliz
e embaixo a seguinte legenda:
o amor reina neste lugar
lar doce lar
.
Lua


quinta-feira, outubro 18, 2007

"La danse"

olhando para dentro de si
ela rodopia e cai
colorida e leve
como a sua saia
quando ela a tira
para dançar o amor
à noite inteira

chaque soir.

quarta-feira, outubro 17, 2007

Inverso

toca
com a ponta
e escorre
manchando
todo o rosto
de preto
borrando
a triste
expressão
saudosa
.
.
.
tua
não
mais
minha.

Lua

quarta-feira, outubro 10, 2007

Para Ernesto e Che

homem
mortal
eterno
herói
pai
filho
marido
irmão
guerrilheiro
sonhador
corpo flácido
morno
olhos vivos
sorriso sereno
diário de palavras
farrapos nos pés
descanso da luta
de dias
e noites
sem cessar
causa perdida?!
não!
a vitória
só começou
e a morte
não apagou
o vermelho
do sangue
da luta
da causa
da bandeira
do coração
estilhaçado de bala
mas palpitante
por toda a história
até o fim
e se o fim
existir
será vermelho.

segunda-feira, outubro 08, 2007

40 anõs sin Che
Breve meditação sobre um retrato de Che Guevara



Por José Saramago

Não importa que retrato. Qualquer um: sério, sorrindo, arma em punho, com Fidel ou sem Fidel, dizendo um discurso nas Nações Unidas, ou morto, com o dorso nú e olhos entreabertos, como se do outro lado da vida ainda quisera acompanhar o rastro do mundo que teve que deixar, como se não se resignasse a ignorar para sempre os caminhos das infinitas criaturas que estavam por nascer. Sobre cada uma dessas imagens se poderia reflexionar profundamente, de um modo lírico ou de um modo dramático, com a objetividade prosaica do historiador ou simplesmente de alguém que se dispõe a falar do amigo que descobre haver perdido porque não o chegou a conhecer.Ao Portugal infeliz e amordaçado de Salazar e de Caetano chegou um dia o retrato clandestino de Ernesto Che Guevara, o mais célebre de todos, aquele feito com manchas fortes de negro e vermelho, que se converteu na imagem universal dos sonhos revolucionários do mundo, promessa de vitórias a tal ponto fertéis que nunca poderiam se degenerar em rotinas nem em exepcismos, antes dariam lugar a outros muitos triunfos, o do bem sobre o mal, o do justo sobre o inícuo, o da liberdade sobre a necessidade. Emoldurado ou fixo na parede por meios precários, esse retrato esteve presente em debates políticos apaixonados na terra portuguesa, exaltou argumentos, atenuou desânimos, namorou esperanças. Foi visto como um Cristo que havia descido da cruz para descrucificar a humanidade, como um ser dotado de poderes absolutos que fosse capaz de extrair de uma pedra a água na qual se mataria toda a sede, e de transformar essa mesma água no vinho com que se beberia o esplendor da vida. E tudo isto era certo porque o retrato de Che Guevara foi, aos olhos de milhões de pessoas, o retrato da dignidade suprema do ser humano.Mas foi também usado como adorno incongruente em muitas casas da pequena e da média burguesia intelectual portuguesa, para cujos integrantes as ideologias políticas de afirmação socialista não passavam de um mero capricho conjuntural, forma supostamente arriscada de ocupar ócios mentais, frivolidade mundana que não pôde resistir ao primeiro choque da realidade, quando os fatos vieram exigir o cumprimento das palavras. Então, o retrato do Che Guevara, testemunha, primeiro, de tantos inflamados anúncios de compromisso e ação futura, juiz, agora, do medo encoberto, da renúncia covarde ou da traição aberta, foi retirado das paredes, escondido, na melhor da hipóteses, no fundo de um armário, ou radicalmente destruído, como se fosse motivo de vergonha.Uma das lições políticas mais instrutivas, nos tempos de hoje, seria saber o que pensavam de si mesmos esses milhares e milhares de homens e mulheres que em todo o mundo tiveram algum dia o retrato de Che Guevara na cabeceira da cama, ou na frente da mesa de trabalho, ou na sala onde recebiam os amigos, e que agora sorriem por haver acreditado ou fingido crer. Alguns diriam que a vida mudou, que Che Guevara, ao perder sua guerra, fez perder a nossa, e por tanto era inútil chorar, como uma criança que chora pelo leite derramado. Outros confessariam que se deixaram envolver por uma moda da época, a mesma que fez crescer barbas e cabelos, como se a revolução fosse uma questão de barbeiros. Os mais honestos reconheceriam que lhes dói o coração, que sentem em um movimento perpétuo de um remordimento, como se sua verdadeira vida houvesse suspendida o curso e agora lhes perguntasse, obsessivamente, aonde pensam que vão sem ideais nem esperança, sem uma idéia de futuro que dê algum sentido ao presente. Che Guevara, se assim pode dizer, já existia antes de ter nascido.Che Guevara, se assim pode afirmar, continua existindo depois de morto. Porque Che Guevara é somente o outro nome do que há de mais justo e digno no espírito humano. O que devemos despertar para conhecer e conhecemos, para agregar o passo humilde de cada um ao caminho de todos.
José Saramago, escritor e Premio Nobel de Literatura.

terça-feira, outubro 02, 2007

Por tanto querer...


"Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro.
Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu. "

Caio Fernando

quinta-feira, setembro 27, 2007

À l'attente








Dans moi le chante de la salle
le sourire de lui
il a nettoyé les chants
poussiéreuxdes
parties restantes
vieuxd'un un récent passé
Dans moi le chante de la salle
le sourire de lui
il a illuminé le foncé
à l'attente
du nouveau sourire
qu'il coûtait
pour arriver

Lune

terça-feira, setembro 25, 2007

Busca

De verde se vestiu
e saiu sem nada dizer
precisava encontrar
tudo aquilo que perdeu
mas nem sempre se encontram
verdades entre folhas secas
principalmente quando é Primavera.

Lua

segunda-feira, agosto 27, 2007

Emoção de cor laranja













"Ele dissipa o amor. Na voz, nos gestos, no suor, no violão. "

É incrível a energia atrativa desse ruivo de traços peculiares, corpo frágil e intensidade contagiosa. Além do vasto repertório de letras extremamente interessantes e belas, verdadeiros "Mantras", e sua forma de se colocar diante do mundo e do público são sensacionais. Com sua visão de continuidade da vida através do amor, ele embriaga aos que ouvem sua música com o coração, nos faz vibrar, sorrir, chorar e ver "As coisas tão mais lindas" que existem nesse mundo, que como ele mesmo diz: Nós é que estragamos. Ela também não poderia deixar de ser lembrada, Cássia Éller, foi homenagiada em diversos momentos do show, mas principalmente quando ele cantou "All Star" que foi feita para ela e gravada no seu último disco, que a mesma nem sequer teve tempo de lançar.
O show do CD Luau MTV com Os Infernais teve exatos 140 minutos de duração. Cenário vermelho e laranja predominando: a cor do sol e a cor dos cabelos de Nando e Zoé, filha mais nova homenageada em Espatódea - nome de uma árvore que dá uma flor laranja. Sem surpresas, Nando detonou e deixou Fortaleza laranja de emoção. Sem timidez também, só óculos Ray Ban e peito aberto pra sentir toda a nossa vibração.
Assim, com toda essa energia positiva "Quem vai dizer tchau?"
Só poderemos guardar toda essa emoção em um "Relicário" num cantinho especial do coração.

* Cenas bacanas do show de ontem aqui:


http://www.youtube.com/watch?v=T7QLN0PzlbY&NR=1
http://www.youtube.com/watch?v=Y02UyVPw5Iw&NR=1

segunda-feira, agosto 20, 2007

Quem sou eu?









Uma Rua sem nome
Um beco sem saída
Uma Avenida sem canteiro
Uma noite enluarada
Uma poesia de Quintana
Uma praia nublada
Uma música de Noel
Uma placa virada ao contrário
Uma brisa leve na estrada
Uma das Luas de 27 de agosto
Um sorriso de Domingo
Um café bem forte
Um verso de Chico
Um cheiro de Outono
Uma parede verde desbotada
Uma saudade esquecida
Uma árvore na Praça Verde
Um ladrilho preto e branco
Uma foto na caixinha de madeira
Um tumulto no céu
Uma chuva no Polo Sul
Um dedo no anel de Saturno
Uma estrela da Constelação de Órion
Um lírio no sertão
Um sentido dormente
Uma vendinha velha
...
Fechada para balanço

Lua

terça-feira, julho 24, 2007

*Monocromático*


Dia nublado
perdido em Ruas
repletas de buzinas alucinadas
Meu coração
atravessa na faixa
como uma flecha rasgando
a tarde nublada
Cheio de saudades
e preguiça de recomeçar
mais uma vez
Agora chove
e ele chove junto
lágrimas de comodismo
Tudo muda de cor
menos ele
que como sempre
continua cinza.
*
Lua

terça-feira, julho 17, 2007

Rostos da minha terra

À sombra do poeta
Todos são diferentes
Todos são iguais
Indecifráveis sorrisos
Brandos, serenos, insanos
Onde metade do mundo já foi
Para um dia, quem sabe?!
Ou talvez, nunca mais.
Os rostos da minha terra
Tem sob os dedos sinal de fogo
Nos corações um ardor de fornalha
E em seus sonhos uma breve ilusão
Sonhos que giram e retornam
Impunemente ao mesmo lugar
Ciclo vicioso que está longe de acabar
A descoberta de um mundo novo
É a esperança que dança breve no vento
E nos alivia deste Sol que nos queima
Todos os dias, sem cansar.

Lua





A noiva de sandálias vermelhas


Do outro lado da rua
à espera, ela sorri.
A noiva de sandálias vermelhas
solitária, me olha querendo acreditar
que em instantes tudo vai mudar
ou será quê?!
Acho que fugiu do altar
quer continuar a pecar
ela só não sabe
que a solidão não tem cor
mas ela, usa sandálias vermelhas.



Lua

segunda-feira, julho 16, 2007

"Carnaval só no ano que vem"
...


É esse o título do CD da brilhante, Orquestra Imperial.Não espere ouvir no primeiro álbum da Orquestra Imperial a reprodução dos incensados bailes comandados pela big-band carioca. Se o EP editado em fevereiro empolgava com quatro sambas antigos, tocados à moda dos shows feitos pela turma, Carnaval Só Ano que Vem troca a folia pela serenidade. É CD de inéditas que aposta em timbres mais calmos urdidos sob a batuta do produtor Mario Caldato Jr. A mudança de clima já é perceptível na abolerada O Mar e o Ar e Rodrigo Amarante(Los Hermanos), que abre o disco com levada que remete a João Donato - referência que se detecta também em Yarusha Djaruba, de tonalidade cubana. Há, sim, os sambas de formato mais tradicional (Salamaleque e Era Bom são os melhores), mas o disco extrapola o universo da dança. Jardim de Alah e Rue de mes Souvenirs (o tema cool cantado em francês por Thalma de Freitas) evocam a velha bossa. Interpretada pela boa Nina Becker, De um Amor em Paz esboça viagem psicodélica. Enfim, os grooves são outros. Não tão contagiantes quanto os do EP carnavalesco, só que corajosos. A Orquestra Imperial não se apresenta como uma banda de covers neste primeiro álbum que também ambiciona o mercado estrangeiro. Carnaval, só no show. Com esse time de músicos e cantores de altíssima qualidade e bom gosto, não tem como não existir a certeza de um CD excepcional, que até já está soando no meio musical como o melhor do ano.Quem vai perder essa "folia"?

Faixas

1. O Mar e o Ar 2. Não Foi em Vão 3. Ereção 4. Jardim de Alah 5. Rue de Mes Souvenirs 6. Yarusha Djaruba 7. Era Bom 8. Salamaleque 9. Ela Rebola 10. De um Amor em Paz 11. Supermercado do Amor

quinta-feira, julho 05, 2007

Enlace

Espaço
do passo
que passa
e espalha
Enlaça
o compasso
descompassado
do despaço
que laça
e ata
.
.
.
o meu coração

Lua