quinta-feira, outubro 18, 2007

"La danse"

olhando para dentro de si
ela rodopia e cai
colorida e leve
como a sua saia
quando ela a tira
para dançar o amor
à noite inteira

chaque soir.

quarta-feira, outubro 17, 2007

Inverso

toca
com a ponta
e escorre
manchando
todo o rosto
de preto
borrando
a triste
expressão
saudosa
.
.
.
tua
não
mais
minha.

Lua

quarta-feira, outubro 10, 2007

Para Ernesto e Che

homem
mortal
eterno
herói
pai
filho
marido
irmão
guerrilheiro
sonhador
corpo flácido
morno
olhos vivos
sorriso sereno
diário de palavras
farrapos nos pés
descanso da luta
de dias
e noites
sem cessar
causa perdida?!
não!
a vitória
só começou
e a morte
não apagou
o vermelho
do sangue
da luta
da causa
da bandeira
do coração
estilhaçado de bala
mas palpitante
por toda a história
até o fim
e se o fim
existir
será vermelho.

segunda-feira, outubro 08, 2007

40 anõs sin Che
Breve meditação sobre um retrato de Che Guevara



Por José Saramago

Não importa que retrato. Qualquer um: sério, sorrindo, arma em punho, com Fidel ou sem Fidel, dizendo um discurso nas Nações Unidas, ou morto, com o dorso nú e olhos entreabertos, como se do outro lado da vida ainda quisera acompanhar o rastro do mundo que teve que deixar, como se não se resignasse a ignorar para sempre os caminhos das infinitas criaturas que estavam por nascer. Sobre cada uma dessas imagens se poderia reflexionar profundamente, de um modo lírico ou de um modo dramático, com a objetividade prosaica do historiador ou simplesmente de alguém que se dispõe a falar do amigo que descobre haver perdido porque não o chegou a conhecer.Ao Portugal infeliz e amordaçado de Salazar e de Caetano chegou um dia o retrato clandestino de Ernesto Che Guevara, o mais célebre de todos, aquele feito com manchas fortes de negro e vermelho, que se converteu na imagem universal dos sonhos revolucionários do mundo, promessa de vitórias a tal ponto fertéis que nunca poderiam se degenerar em rotinas nem em exepcismos, antes dariam lugar a outros muitos triunfos, o do bem sobre o mal, o do justo sobre o inícuo, o da liberdade sobre a necessidade. Emoldurado ou fixo na parede por meios precários, esse retrato esteve presente em debates políticos apaixonados na terra portuguesa, exaltou argumentos, atenuou desânimos, namorou esperanças. Foi visto como um Cristo que havia descido da cruz para descrucificar a humanidade, como um ser dotado de poderes absolutos que fosse capaz de extrair de uma pedra a água na qual se mataria toda a sede, e de transformar essa mesma água no vinho com que se beberia o esplendor da vida. E tudo isto era certo porque o retrato de Che Guevara foi, aos olhos de milhões de pessoas, o retrato da dignidade suprema do ser humano.Mas foi também usado como adorno incongruente em muitas casas da pequena e da média burguesia intelectual portuguesa, para cujos integrantes as ideologias políticas de afirmação socialista não passavam de um mero capricho conjuntural, forma supostamente arriscada de ocupar ócios mentais, frivolidade mundana que não pôde resistir ao primeiro choque da realidade, quando os fatos vieram exigir o cumprimento das palavras. Então, o retrato do Che Guevara, testemunha, primeiro, de tantos inflamados anúncios de compromisso e ação futura, juiz, agora, do medo encoberto, da renúncia covarde ou da traição aberta, foi retirado das paredes, escondido, na melhor da hipóteses, no fundo de um armário, ou radicalmente destruído, como se fosse motivo de vergonha.Uma das lições políticas mais instrutivas, nos tempos de hoje, seria saber o que pensavam de si mesmos esses milhares e milhares de homens e mulheres que em todo o mundo tiveram algum dia o retrato de Che Guevara na cabeceira da cama, ou na frente da mesa de trabalho, ou na sala onde recebiam os amigos, e que agora sorriem por haver acreditado ou fingido crer. Alguns diriam que a vida mudou, que Che Guevara, ao perder sua guerra, fez perder a nossa, e por tanto era inútil chorar, como uma criança que chora pelo leite derramado. Outros confessariam que se deixaram envolver por uma moda da época, a mesma que fez crescer barbas e cabelos, como se a revolução fosse uma questão de barbeiros. Os mais honestos reconheceriam que lhes dói o coração, que sentem em um movimento perpétuo de um remordimento, como se sua verdadeira vida houvesse suspendida o curso e agora lhes perguntasse, obsessivamente, aonde pensam que vão sem ideais nem esperança, sem uma idéia de futuro que dê algum sentido ao presente. Che Guevara, se assim pode dizer, já existia antes de ter nascido.Che Guevara, se assim pode afirmar, continua existindo depois de morto. Porque Che Guevara é somente o outro nome do que há de mais justo e digno no espírito humano. O que devemos despertar para conhecer e conhecemos, para agregar o passo humilde de cada um ao caminho de todos.
José Saramago, escritor e Premio Nobel de Literatura.

terça-feira, outubro 02, 2007

Por tanto querer...


"Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro.
Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu. "

Caio Fernando

quinta-feira, setembro 27, 2007

À l'attente








Dans moi le chante de la salle
le sourire de lui
il a nettoyé les chants
poussiéreuxdes
parties restantes
vieuxd'un un récent passé
Dans moi le chante de la salle
le sourire de lui
il a illuminé le foncé
à l'attente
du nouveau sourire
qu'il coûtait
pour arriver

Lune

terça-feira, setembro 25, 2007

Busca

De verde se vestiu
e saiu sem nada dizer
precisava encontrar
tudo aquilo que perdeu
mas nem sempre se encontram
verdades entre folhas secas
principalmente quando é Primavera.

Lua

segunda-feira, agosto 27, 2007

Emoção de cor laranja













"Ele dissipa o amor. Na voz, nos gestos, no suor, no violão. "

É incrível a energia atrativa desse ruivo de traços peculiares, corpo frágil e intensidade contagiosa. Além do vasto repertório de letras extremamente interessantes e belas, verdadeiros "Mantras", e sua forma de se colocar diante do mundo e do público são sensacionais. Com sua visão de continuidade da vida através do amor, ele embriaga aos que ouvem sua música com o coração, nos faz vibrar, sorrir, chorar e ver "As coisas tão mais lindas" que existem nesse mundo, que como ele mesmo diz: Nós é que estragamos. Ela também não poderia deixar de ser lembrada, Cássia Éller, foi homenagiada em diversos momentos do show, mas principalmente quando ele cantou "All Star" que foi feita para ela e gravada no seu último disco, que a mesma nem sequer teve tempo de lançar.
O show do CD Luau MTV com Os Infernais teve exatos 140 minutos de duração. Cenário vermelho e laranja predominando: a cor do sol e a cor dos cabelos de Nando e Zoé, filha mais nova homenageada em Espatódea - nome de uma árvore que dá uma flor laranja. Sem surpresas, Nando detonou e deixou Fortaleza laranja de emoção. Sem timidez também, só óculos Ray Ban e peito aberto pra sentir toda a nossa vibração.
Assim, com toda essa energia positiva "Quem vai dizer tchau?"
Só poderemos guardar toda essa emoção em um "Relicário" num cantinho especial do coração.

* Cenas bacanas do show de ontem aqui:


http://www.youtube.com/watch?v=T7QLN0PzlbY&NR=1
http://www.youtube.com/watch?v=Y02UyVPw5Iw&NR=1

segunda-feira, agosto 20, 2007

Quem sou eu?









Uma Rua sem nome
Um beco sem saída
Uma Avenida sem canteiro
Uma noite enluarada
Uma poesia de Quintana
Uma praia nublada
Uma música de Noel
Uma placa virada ao contrário
Uma brisa leve na estrada
Uma das Luas de 27 de agosto
Um sorriso de Domingo
Um café bem forte
Um verso de Chico
Um cheiro de Outono
Uma parede verde desbotada
Uma saudade esquecida
Uma árvore na Praça Verde
Um ladrilho preto e branco
Uma foto na caixinha de madeira
Um tumulto no céu
Uma chuva no Polo Sul
Um dedo no anel de Saturno
Uma estrela da Constelação de Órion
Um lírio no sertão
Um sentido dormente
Uma vendinha velha
...
Fechada para balanço

Lua

terça-feira, julho 24, 2007

*Monocromático*


Dia nublado
perdido em Ruas
repletas de buzinas alucinadas
Meu coração
atravessa na faixa
como uma flecha rasgando
a tarde nublada
Cheio de saudades
e preguiça de recomeçar
mais uma vez
Agora chove
e ele chove junto
lágrimas de comodismo
Tudo muda de cor
menos ele
que como sempre
continua cinza.
*
Lua

terça-feira, julho 17, 2007

Rostos da minha terra

À sombra do poeta
Todos são diferentes
Todos são iguais
Indecifráveis sorrisos
Brandos, serenos, insanos
Onde metade do mundo já foi
Para um dia, quem sabe?!
Ou talvez, nunca mais.
Os rostos da minha terra
Tem sob os dedos sinal de fogo
Nos corações um ardor de fornalha
E em seus sonhos uma breve ilusão
Sonhos que giram e retornam
Impunemente ao mesmo lugar
Ciclo vicioso que está longe de acabar
A descoberta de um mundo novo
É a esperança que dança breve no vento
E nos alivia deste Sol que nos queima
Todos os dias, sem cansar.

Lua





A noiva de sandálias vermelhas


Do outro lado da rua
à espera, ela sorri.
A noiva de sandálias vermelhas
solitária, me olha querendo acreditar
que em instantes tudo vai mudar
ou será quê?!
Acho que fugiu do altar
quer continuar a pecar
ela só não sabe
que a solidão não tem cor
mas ela, usa sandálias vermelhas.



Lua

segunda-feira, julho 16, 2007

"Carnaval só no ano que vem"
...


É esse o título do CD da brilhante, Orquestra Imperial.Não espere ouvir no primeiro álbum da Orquestra Imperial a reprodução dos incensados bailes comandados pela big-band carioca. Se o EP editado em fevereiro empolgava com quatro sambas antigos, tocados à moda dos shows feitos pela turma, Carnaval Só Ano que Vem troca a folia pela serenidade. É CD de inéditas que aposta em timbres mais calmos urdidos sob a batuta do produtor Mario Caldato Jr. A mudança de clima já é perceptível na abolerada O Mar e o Ar e Rodrigo Amarante(Los Hermanos), que abre o disco com levada que remete a João Donato - referência que se detecta também em Yarusha Djaruba, de tonalidade cubana. Há, sim, os sambas de formato mais tradicional (Salamaleque e Era Bom são os melhores), mas o disco extrapola o universo da dança. Jardim de Alah e Rue de mes Souvenirs (o tema cool cantado em francês por Thalma de Freitas) evocam a velha bossa. Interpretada pela boa Nina Becker, De um Amor em Paz esboça viagem psicodélica. Enfim, os grooves são outros. Não tão contagiantes quanto os do EP carnavalesco, só que corajosos. A Orquestra Imperial não se apresenta como uma banda de covers neste primeiro álbum que também ambiciona o mercado estrangeiro. Carnaval, só no show. Com esse time de músicos e cantores de altíssima qualidade e bom gosto, não tem como não existir a certeza de um CD excepcional, que até já está soando no meio musical como o melhor do ano.Quem vai perder essa "folia"?

Faixas

1. O Mar e o Ar 2. Não Foi em Vão 3. Ereção 4. Jardim de Alah 5. Rue de Mes Souvenirs 6. Yarusha Djaruba 7. Era Bom 8. Salamaleque 9. Ela Rebola 10. De um Amor em Paz 11. Supermercado do Amor

quinta-feira, julho 05, 2007

Enlace

Espaço
do passo
que passa
e espalha
Enlaça
o compasso
descompassado
do despaço
que laça
e ata
.
.
.
o meu coração

Lua











quinta-feira, junho 28, 2007

Um pouco de mim?!

A PERSONALIDADE DO CANCERIANO


SÍMBOLO DA IMAGINAÇÃO

"Eu busco a mim mesmo através do que sinto"

Dia 03 de Julho

2º Decanato:Apesar de aparentemente ser calmo e tímido é impaciente, persistente e sempre apaixonado (02/07 a 11/07).


"Era manhã quando DEUS parou diante de suas doze crianças e em cada uma delas plantou a semente da vida humana. Uma por uma, elas dirigiram-se a Ele para receber seu dom e conhecer sua missão ".

" Para você, Câncer, dou a tarefa de ensinar aos homens sobre emoção. Minha idéia é você causar-lhes risos e lágrimas para que tudo que vejam e pensem se desenvolva com plenitude interior. Para isso, dou-lhe o dom da família , para que sua plenitude possa se multiplicar".


ELEMENTO: Ar

PLANETA: Lua

GÊNERO: Feminino

PAR IDEAL: Capricórnio

COR: Branco e Prateado

PEDRAS: Cristal, Pérola e Esmeralda

METAL: Prata

PERFUME: Lilás, Lírio e Rosa

PLANTAS E FLORES: Tília, Lírios e Juncos que crescem em água

DIA DE SORTE: 2º feira

N º DE SORTE: 02

ESTRELA GUIA: Sírius

PLANO DE VIDA: Astral

MAGIA: Espíritos da água - Ondinas

PRINCIPAL CARACTERÍSTICA: Impressionabilidade

PERSONALIDADE: Alegre, generoso, imaginativo e sonhador, o canceriano refugia-se em sua casa sempre que pressente o perigo, pois precisa de proteção. Apesar da índole pacífica, é desconfiado e um pouco receoso. A mulher de câncer é dedicada ao lar e à família.

VIRTUDES: Cuidado com as necessidades e vontades dos outros; excessiva sensibilidade e amorosidade.

DEFEITOS: Irritabilidade; medos infundados e um pouco de teimosia.

AMBIENTE: É favorável ao ambiente que lhe garanta proteção, devendo ser, preferencialmente, o mar, mas também lagos e montanhas.

ATIVIDADES: Evita profissões competitivas, sendo bem sucedido quando possui autonomia e segurança. Literatura, música e teatro poderão levá-lo ao sucesso.

segunda-feira, junho 18, 2007

Ousados











Vi teus sapatos
Usados
Ousados
Entrelaçando
Meus pés
Cansados
Saudosos
Dos teus
Formam um belo par, não acha?!
Lindos
Apaixonados
Sempre juntos
Caminhando
Ou deitados
E principalmente
Quando apontam o teto
Estrelado
Do quarto

Ardendo

Queimando

Amando

Lua



segunda-feira, junho 11, 2007

Para ler ao som de Pra te lembrar...

Lembranças de cada dia

Cada noite é uma saudade
Saudade que dói, machuca e cresce
Cada Lua é uma lembrança
Lembrança minha e tua
O que tem de comum entre elas:
Estás presente em todas.
Em cada noite, em cada Lua
Por todos os meus dias de saudade
Em todas as minhas lembranças de cada dia.

Lua

terça-feira, junho 05, 2007

Feliz da vida

Hoje vou cantar
Aquela triste melodia
Vesti a velha fantasia
E vou pra pista sambar

Quero ver
A linda Colombina
Que me roubou a vida
E me fez amar

Hoje vou morrer
Em plena Avenida
Mas, vou feliz da vida
Lá no céu chegar

Encontrei
Encontrei
O meu amor da vida
Estou feliz da vida
Nunca vou te deixar

Hj vou morrer
Em plena Avenida
Mas, vou feliz da vida
Lá no céu chegar

Encontrei
Encontrei
O meu amor da vida
Estou feliz da vida
Nunca vou te deixar

Renata Costa

segunda-feira, junho 04, 2007

À mesa

É um trecho da poesia que eu mais gosto do meu querido poeta, Wiliam Lial.
Essa é a forma mais bela que um homem pode olhar para uma mulher, como única no mundo.Isso me lembra bem o Pequeno Príncipe em suas sábias palavras e sentimentos pela sua rosa, para ele "única no mundo".Essa eu deixo para os apaixonados e suas musas inspiradoras e que assim seja!

"E longe d'ali,
lá fora,
tudo contribuía com ela:
a noite quieta,
a lua espiando escondida,
as pessoas invisíveis a passar,
teimando em tentar existir;

enquanto,
frente a tudo,
diante de seu rosto,
eu não sabia
o que a fazia mais bonita:
o simples fato de existir,
ou o simples fato de
fazer o resto do mundo não existir."

William Lial

No fundo de si

...
Ela sorriu, mas não durou.
Veio àquela lembrança de sempre e ele partiu com medo.
Já não a visitava com frequência e quando assim o fazia, assutava-se com suas loucuras.Ela novamente tentou, mas dessa vez, seu rosto nem sequer movimentou.
Assustada desceu as escadas, tão decidida, como nunca antes.Cruzou a cozinha, o corredor e parou na sala.A TV ligada e um cheiro familiar debruçado no sofá vermelho encarnado assistia atento ao patético programa de Domingo, nem seuqer percebeu o desespero em seus olhos.
Mesmo assim ela pensou desistir, mas logo desistiu de desistir.Calçou as botas, vestiu o casaco que estava estendido nas costas da cadeira ao lado da porta e olhou seu reflexo no quadro à sua frente, olhou-se com medo e ao mesmo tempo uma espécie de orgulho estranho e se foi.Dia frio, sem cor.A ventania parecia trazê-la mais e mais recordações de tempos bons, felizes talvez.Ela olha as pessoas envergonhada como se todas soubessem o que ela pretendia.Por vezes, se questionou estar certa e sempre tinha a mesma resposta em sua emnte, não!Acho que por isso continuou.Durante toda sua vida fez o que estava dentro da razão, do que era mais sábio e correto, mas agora estava decidida a fazer diferente, estava decidida a mudar seu destino a deixar a insensatez comandar suas vontades.
Depois de caminhar por mais de uma hora, avistou o antigo prédio de número 43 da rua de sua infância.A ruazinha tranquila cheia de árvores e cheiros antigos, lembranças quase tocáveis.Ela podia ver as crianças brincando na pequena praça em frente, inclusive ela.Podia se ver com um vestido amarelo de bolinhas brancas que ganhou de sua avó e um chapeuzinho cor-de-rosa com flores miúdas na aba.Sentiu o cheiro de colônia fresca que sua mãe passava pela manhã ao acordar e também do cheiro de folhas secas do Outono daquele ano.Ali ela foi feliz e o sorriso a visitava todos os dias e quase sempre o dia todo.O velho porteiro era o mesmo e a reconheceu contente, contou um pouco do que aconteceu com seus vizinhos, dos rumos que deram as suas vidas e que algumas famílias ainda continuavam morando ali.Ouviu, mas já não se interessava pelo presente.Pediu para subir até a caixa d´água, pois era o seu lugar predileto na infância, seu esconderijo secreto, seu refúgio.Gostava de fugir para lá quando apanhava do pai ou simplesmente quando queria ver melhor o pôr-do-sol, lá do alto sentia-se superior, intocável, bobagem de criança.
A paisagem mudou, mas não muito.E a vontade de encontrá-lo tornava-se cada vez mais intensa.Sentou-se na caixa d'água e esperou silenciosamente a hora do pôr-do-sol, sem Sol.Naquele dia ele não apareceu, o céu estava pálido, um branco fosco e sem expressão.Parecia triste, sem vida.Os sinos da capela batem.São seis horas em ponto, ela acorda do transe e vê que está na hora de ir.Levanta devagar, limpa com cuidado a calça e caminha em direção a mureta de proteção da caixa d'água.Sua vontade de vê-lo é maior do que seu medo de altura, ela sobe sem olhar para baixo, equilibra-se, fecha os olhos e sente o vento frio acariciando seus cabelos.Imagina-se quando subia na árvore para pular de barriga na lagoa e sorria com o estalo na água.Começou a ouvir seu sorriso e foi em busca dele que ela veio, foi em busca dele que ela resolveu pular novamente na lagoa, para ver se o encontra lá no fundo, no fundo de si.
...
Lua